São 5h24 da manhã.
Após uma falha tentativa de dormir, venho escutar Pink Floyd, ao lembrar toda a conversa durante a madrugada. Uma conversa que não deveria ter acontecido, por obrigações logo ao amanhecer, mas houve.
Nesta, veio uma pequena discussão se transformar numa longa trajetória de profundo conhecimento. De quê? Ah, daquele que tu mais amas. Como o ciúme se transformou em confissões (das quais eu insistia que era verdade, mas desmentiu.. até hoje.) e, finalmente, em relembrar coisas do passado que jamais gostaríamos de ter passado.
Você, aliás. Uma história que nenhum homem digno gostaria de ter passado, porque ah, porque não merecia… Nunca mereceu. Um nome que um dia tu me dirás, seja em 1 mês, seja em 20 anos. Mas este nome há de você pronunciá-lo na minha frente, com todas as letras.
Nada é uma pessoa sem um passado. E então eu me pergunto: e eu? O que eu sou, afinal?
Seria alguém com pensamentos obscuros, curiosidades fatais?
Sou aquela que não vê o seu passado. Aquela que sempre foi restrita de tudo e de todos. Fui criada para ser uma garota extremamente mimada, porém o destino me trouxe algo melhor
E eu não acredito em destino.
Sabe, tenho muita inveja de quem consegue cultivar as mesmas amizades desde criança, de poder dizer “Uau! Nós nascemos juntos praticamente e nunca nos separamos”, com 20 anos de estrada. As mesmas amizades que presenciaram uma pré-adolescência calma e, de repente, vir uma adolescência turbulenta, tanto quanto um trem desgovernado.
Apesar do meu ciúme, o contive em apenas ouví-lo durante toda a madrugada.
Porém veio esta inveja - diga-se de passagem, inveja branca -, de alguém que não tem uma história para contar. Sempre fui muito vigiada, um sistema muito rigoroso; quase como a Ditadura Militar, só nunca me ameaçaram de morte. E eu morava numa cidade pequena, onde ninguém parecia ser bom o suficiente para relacionar comigo… Agora, parece que perdi uma etapa da minha vida, praticamente.
Todas as minhas curiosidades e vontades eram secretas, ninguém sabia das mesmas. Mesmo as mais bobas, mas ninguém sabia. Não, nunca fugi de casa, nunca peguei um porre de bebidas, nunca namorei (e pouco beijei na boca), andar à pé pela cidade era tão raro quanto o Sarney sendo honesto. E posso até contar nos dedos quantas vezes fui na casa das amigas, nunca confiei em ninguém; tudo isso entre 5 a 15 anos.
As coisas mais loucas que já fiz nesse período foi uma declaração de amor (jogada fora, por sinal), um passe de uma festa dado à pessoa errada e ter o primeiro beijo com alguém mais errado ainda. Não houve mais nada, não que eu me lembre. Mas, como disse anteriormente, as vontades que eu tinha ficavam ali, vivas em algum canto do meu cérebro, loucas para transbordarem pela minha alma.
Moro só, mas ainda hoje faço tudo escondida. Sabe por quê? Meu apartamento tem câmeras de vigilância… É, privacidade é algo que nunca tive.
Óbvio que tudo melhorou. Depois dos meus 16 anos, descobri alguém para quem posso transbordar aquelas vontades caladas. Alguém em quem posso confiar o suficiente para me descobrir, finalmente. Depois de uma adolescência calada e injusta, nada mais natural do que um turbilhão de emoções após ser solta da gaiola
Aquele alguém que tudo me falou durante esta madrugada.
Liberdade de expressão, aos poucos estou conseguindo isto. Conseguir ser eu mesma, conseguir ter opinião própria e saber que, desde então, posso comer o que quero, vestir o que quero, pensar o que quero. Tomar conta das minhas próprias atitudes, e fazer valer a pena uma fase adulta; coisa que não consegui com a minha fase anterior, quase descartável.
Aos poucos estou conseguindo conhecer as pessoas, andar com quem eu quero e falar com quem eu quero…
Mas a inveja branca sempre continuará viva.
Não peço a ninguém que entenda este texto. É um desabafo com erros ortográficos, apenas.